Totoma! por Marcos Bonisson

Texto crítico da exposição do Ateliê da Imagem

“A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. (Roland Barthes)”

O que acontece nos bailes funk da zona norte e sul é também de ordem catártica. Fotografar baile funk não é para qualquer um. No centro da pista, na batida do pancadão, uma espiral de corpos é desenhada, serpenteando o espaço. A gravidade funk age e tudo converge, sugando todos para o vórtice, e gerando uma onda de energia indizível. Nessa situação, a fotógrafa tem que estar preparada para o inesperado, e munida de visão panóptica, porque a chapa quente é periférica. Em leitura possível, imagens transitivas são aquelas que operam um deslocamento da cognição visual para o domínio de outros sentidos. Com efeito, as imagens de Dani Dacorso são sonoplásticas, olfativas. Se as olharmos atentamente, podemos ouvir a intensidade do som e sentir o cheiro de suor, henê e sexo. A fotógrafa visa um eixo subjetivo de seleção e combinação, escolhendo os sinais e indiciando o processo de revelar, em imagens-metonímias, o todo pela parte. Fotografias são fragmentos, relances. Acumulamos relances. Conhecer é antes de tudo reconhecer. O que está claramente em jogo nesse acúmulo de fragmentos funk é o registro de um êxtase enunciado, pela fala do corpo, em uma de suas pulsões cardinais: a dança.

Dacorso tem fotografado o funk carioca por quase dez anos. Se a linguagem organiza os signos, o significante do trabalho de Dani é apontar uma imagem acústica de leitura plural. Definir essas fotografias de documentais e preto e branco é apenas dizer algo sobre sua sintaxe, mas não sobre sua semântica de sentido variado. Contudo, há todo um ritual de atitude instável apresentado pela meninada nos bailes funk. Conflitos à parte, a catarse da dança e do cantar junto, dominam o ambiente. Uma alegria instantânea, como reação à adversidade. O conteúdo manifesto dessas fotos reside primordialmente na tensão instaurada na pista, pela alteridade dos corpos em ação dançante. Nesse sentido, corpo e visão se fundem criando fissuras, por onde podemos olhar e imaginar realidades das quais não temos necessariamente uma experiência direta. Toma-totoma-toma repete o refrão na batida do tamborzão, enquanto a lente embaçada da fotógrafa observa a massa que pulsa no espaço. Dani executa nessa mostra um projeto de notação visual, separando precisamente o essencial do acessório, e indagando em fotos-vislumbres: que fenômeno funk é esse?

Marcos Bonisson

Advertisements